Brincando de ser poeta...

                                

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      " Como é por dentro outra pessoa"


       Como é por dentro outra pessoa
       Quem é que o saberá sonhar?
       A alma de outrem é outro universo
       Como que não há comunicação possível,
       Com que não há verdadeiro entendimento.

       Nada sabemos da alma
       Senão da nossa;
       As dos outros são olhares,
       São gestos, são palavras,
       Com a suposição de qualquer semelhança
       No fundo.

                                             (Fernando Pessoa)

 

       

 
                                                          


Utopia


Todo um sol pulsa em meu coração!

 

Seus lábios viris tomam os meus com ternura,

moldando-os com perfeição, envolvendo-os com luxúria.

 

O contorno firme do seu queixo reconheço.

A maciez sombria em seus cabelos experimento...

 

Trêmula, saboreio a sua boca querida,

a umidade doce da sua língua atrevida.

 

Meus olhos se fecham – puro deleite –.

Your image is so perfect!

 

Cintila ainda em minha mente

a faísca felina dos seus olhos azuis.

 

Ao seu lado sou um ser alado,

me imagino sólida, me imagino forte.

Em seus braços sou um ser líquido,

me vejo grande, me vejo infante.

 

Nestes dois mundos distintos,

de possibilidades infinitas, 

é onde eu existo.

                                                        Sarah Valensky

 

24Mai2008 - 10:18 | ( 3 ) comentários

 
Face

Imagens sem forma
Palavras sem som
O escuro me deixa sem chão.

Sentimentos cortantes e amargos
- Complexo labirinto -
Como extirpar esses espinhos do espírito?

Mais uma noite sem dormir.
Mais um amanhecer sem descanso.
E me pego gritando: “Até quando?!”

Vejo o céu azul, tão lindo, caindo sobre minha cabeça.
E tudo aconteceu num segundo infinito. Aterrorizante. Agonizante.

“Vi meu corpo ser esmagado
E o único arrependimento que senti
Foi não poder mais acompanhar o seu crescimento...”

                                                                        Sarah Valensky 

 

24Fev2008 - 22:41 | ( 5 ) comentários

 

 

Essa é uma história antiga, que já foi contada tantas vezes e por tantas pessoas, que talvez alguns trechos tenham sido esquecidos ou alguns outros, ainda, tenham sido acrescidos...

 

Lua Quebrada

“Num cavalo branco” – a garota sonhava –, “num cavalo branco ele virá me buscar e me levará para um
lugar bem distante daqui...”

Resguardada no alto da torre, todos os dias ela se debruçava sobre o parapeito da janela, e ficava esperando, esperando...

Ela olhava para a linha do horizonte e tentava adivinhar o que havia mais além. Mas a insegurança e o medo a assaltavam, ao mesmo tempo em que ela sabia que não queria ir mais além das muralhas.
Ela acreditava no sonho e queria esperar...

À medida em que o tempo ia passando, o castelo de mármore parecia
- a cada dia a garota sentia -,
mais vazio e solitário, cada vez mais triste e isolado. 
 

Alto, cabelos de mel e olhos de fogo. Ele veio para tornar realidade o que antes era apenas sonho.

Deus grego, poderoso e viril, seus lábios eram desejo e seu corpo pura satisfação. O coração da garota pulsava atordoado, sem rédeas, inebriado. Em suas mãos fortes ela segurou e se deixou levar pela doce ilusão.

Tudo era perfeito. E ela também queria ser perfeita... Assim, todos os seus esforços passaram a girar em torno disto. Não se deu conta de que o baile de máscaras poria o seu mundo a perder. Ela queria se sentir parte de algo, queria se sentir inteira e admirada. Mas, enquanto permanecia desnuda, os outros vestiam suas máscaras com maestria.  

Alto, cabelos de mel, olhos de fogo. A garota parecia nunca estar à altura do escolhido.

Com o tempo, o esforço que despendia ia sugando suas energias, suas esperanças...

 Então, à noite, quando ela olhava para o céu escuro, tudo o que conseguia enxergar era uma lua quebrada... E seu coração cálido muitas vezes era banhado pelo vento gélido do ceticismo. 

Num instinto de preservação, os tesouros mais preciosos passaram a ser guardados numa caixinha furtacor.

                                                                              Sarah Valensky

 

23Fev2008 - 18:32 | ( 1 ) comentários

 

Blue Eyes 

Às vezes, sinto-me prestes a ser engolida por esse mar revolto.

Como se todas as paredes fossem fechando-se a cada curva do caminho, deixando-me encurralada, à beira do precipício.

Nesses momentos, eu queria apenas ser um pássaro. Voar livremente. Começar tudo de novo.

Nesses momentos, meu coração bate pequeno dentro do peito. Afoito. Louco para resvalar para essa doce ilusão.

Louco para encontrar esse ser que não existe e nem nunca existirá

- aparência de papel - invólucro de vidro.

 Quase não quero resistir ao canto da sereia...

Ele tem um efeito narcotizante em seus sentidos.

É mel sobre meus lábios.

É calor em minhas entranhas.

É alegria em minha alma.

Sorver um pouco desse líquido fugaz já ameniza a dor dilacerante.

Mas o choro é amargo, porque conheço a realidade: - tal dor nunca cessará.

E nem mesmo o sonho oculto surge como a alternativa mais fácil.

 

                                                       Sarah Valensky

 

4Fev2008 - 09:18 | ( 4 ) comentários

 

Sunny Afternoon 

A brisa morna acaricia o meu rosto, trazendo num flash o calor da sua presença.

Tê-lo perto assim era exatamente o que eu queria.

Olhar em seus olhos. Mergulhar nessa imensidão azul. Decifrar o conteúdo precioso que se esconde por detrás deles...

Mas certos liames nunca podem ser alcançados. Agora eu sei.

E, mesmo assim, não consigo impedir o impulso desesperado e infantil de atingir o inatingível.

Bem no fundo, eu sei que engano a mim mesma, querendo acreditar que todas as respostas estão condensadas na expressividade serena desse seu belo olhar.

Tudo, porque a sua figura alta, viril, desperta em mim uma profusão irracional de sentimentos inquietantes: alegria, angústia, dúvida, esperança.

Will I see you again?”,

minha voz se perde entre os seus lábios, levada pelo vento cálido da tarde ensolarada. E deixo-me envolver pela ternura do seu abraço forte, cuidadoso, protetor, sensual.

 

Quando acordo assustada no meio da noite fria, meu coração confrangido se encolhe um pouco mais.

                                                     

                                                          Sarah Valensky

 

14Jan2008 - 18:14 | ( 1 ) comentários

 

Palavras Difíceis 

O que fazer quando todas as coisas em que você acredita passam a ser duvidosas...?

Pessoas, atitudes, acontecimentos, fatos. O mundo, a história... Deus...

E se tudo o que acreditamos não for nada mais do que mera necessidade orgânica do homem de justificar para si mesmo a finalidade de todas as coisas...?

Será que existe mesmo um porquê para tudo?

E se tudo for realmente fruto do acaso...?

Um dia acreditei num sonho lindo... de almas em comunhão, de corações em harmonia, de um mundo para todos, de compreensão alheia.

Nunca achei que a solidão, que a tristeza, doesse tanto no corpo. Ela escapa da alma, espalha-se pelas entranhas e infiltra-se pelos ossos.

Às vezes, a frustração e a sensação de isolamento entre muitos é pungente.

Sou Davi contra Golias.

Falo de linguagens ininteligíveis... falo numa língua que é desconhecida.

E meus olhos vêm tantas coisas...!

Talvez sejam meros pensamentos desiludidos, pessimistas.

Ou talvez sejam pensamentos cheios de esperança, da esperança de que um dia encontre as respostas.

Todavia, mesmo se elas não existirem, o que vale é o que tenho guardado dentro de mim: um ser de mente aberta, interessado, paciente e de bom coração.

 

                                                             Sarah Valensky

 

29Dez2007 - 21:32 | ( 1 ) comentários

 

Solene Espectro  

 

O que fazer quando o mundo está desmoronando em chamas?

Para onde ir? A quem recorrer?

O seu rosto pálido se esforça para encobrir a tormenta.

É impossível conter as lágrimas que rolam devagar.

Ele queria sumir, ser apenas uma borboleta

para voar livre no espaço.

Ser um ser inerte, não ter sentimentos.

Às vezes, é insuportável a dor

Que lhe corrói por dentro.

E não há nada que alguém possa fazer.

Só ele pode trilhar o seu próprio caminho.

 

                                               Sarah Valensky

 

 

29Dez2007 - 10:27 | ( 1 ) comentários

 

 

 

 

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